Morar fora mexeu com a sua alimentação? Entenda a relação entre comida, rotina e bem-estar no intercâmbio 

Artigo escrito por Ligia Ferreira, nutricionista, a convite da 360.

Antes de falar sobre alimentação, deixa eu me apresentar. Eu sou a Lígia, nutricionista, tenho 27 anos e moro em Vinhedo, no interior de São Paulo. Antes de começar a trabalhar com brasileiros que vivem fora do país, eu também fui intercambista

Em 2023, fui para a Austrália estudar inglês e morei por quase quatro meses em Gold Coast. Foi lá que eu percebi, na prática, o quanto morar fora muda completamente a rotina, inclusive a alimentação.

Minha rotina era bem corrida. Além das aulas, eu trabalhava como cleaner e housekeeper, atendia como nutricionista e ainda trabalhava na empresa da minha família no Brasil, de forma on-line. Muitas vezes, meu dia começava às 5h da manhã e ia até perto da meia-noite.

Por ser nutricionista, eu conseguia me organizar e cuidar da minha alimentação. Mas, ao meu redor, via muitos intercambistas vivendo outra realidade: pouco tempo para cozinhar, cansaço, refeições puladas, muito delivery e uma relação diferente com a comida. Foi aí que eu tive um daqueles momentos de “é com esse público que eu quero trabalhar”.

Quando cheguei na Austrália, meu público ainda era formado por brasileiros no Brasil. Mas, vivendo tudo aquilo de perto, percebi a necessidade de um nutricionista que entendesse não só de alimentação, mas também de como é viver fora em outro país.

Foi a partir da minha própria experiência que comecei a direcionar meu trabalho para brasileiros no exterior, e é sobre isso que quero conversar com você neste artigo.

Morar fora muda muito mais do que o endereço

Você chegou no intercâmbio cheio de planos: conhecer lugares novos, estudar, trabalhar, fazer amigos, viajar e aproveitar cada oportunidade. Mas talvez não tenha imaginado que, junto com tudo isso, sua rotina também mudaria completamente.

De repente, você tem novos horários, precisa conciliar escola e trabalho, passar mais tempo no transporte, dividir a casa com outras pessoas, aprender a cozinhar sozinho, fazer compras em um mercado diferente e se adaptar a alimentos que talvez nunca tenham feito parte da sua rotina. E, no meio de tudo isso, o tempo parece ficar cada vez mais curto.

Quando a rotina muda, a alimentação costuma mudar junto. E isso pode acontecer mesmo sem você perceber. O que antes era simples passa a exigir planejamento, e aquela alimentação que funcionava perfeitamente no Brasil talvez já não faça tanto sentido para a vida que você está vivendo agora.

Rotina corrida X Alimentação

Você acorda correndo, toma um café rápido, vai para a escola ou para o trabalho e, quando percebe, já passou horas sem comer. O almoço acaba sendo qualquer coisa que dê para comer no caminho, ou simplesmente fica para depois. À noite, você chega em casa cansado, sem disposição para cozinhar, e pedir um delivery parece a opção mais fácil. E no fim do dia, aquela fome que foi acumulando aparece de uma vez. 

Isso é muito comum na vida de quem mora fora, principalmente quando existe uma rotina de trabalho e estudos ao mesmo tempo. E talvez você já tenha se pegado pensando: “Eu sei o que deveria comer, então por que não consigo me organizar?” 

Talvez não seja falta de disciplina. Talvez você simplesmente esteja tentando se alimentar dentro de uma rotina que não está dando espaço para isso. Quando passamos muitas horas sem comer, é natural chegar à próxima refeição com muito mais fome, o que pode tornar mais difícil fazer escolhas com calma e perceber o que realmente precisamos naquele momento.

Quando a comida vira uma forma de conforto

Você já chegou em casa depois de um dia difícil, cansativo ou estressante e pensou: “Hoje eu mereço alguma coisa gostosa.” Ou talvez tenha percebido que aquela vontade de comer aparece principalmente depois de uma ligação com a família, de um dia ruim no trabalho ou quando bate aquela saudade de casa. No intercâmbio, a comida pode acabar ocupando um espaço que vai muito além da fome: ela pode trazer conforto, lembrar pessoas, lugares e momentos que ficaram no Brasil.

Isso não significa que exista algo de errado com você ou que toda vontade de comer seja “fome emocional”. A comida também faz parte das nossas emoções, memórias e momentos de prazer. O importante é começar a perceber o que está acontecendo antes de se culpar: “Eu estou realmente com fome ou estou procurando na comida uma forma de me sentir melhor agora?” 

Talvez essa pergunta não faça você deixar de comer. E nem precisa. Ela pode simplesmente ajudar você a se conhecer melhor e entender o que está por trás daquela vontade, porque, às vezes, o que você está procurando não é exatamente comida, mas um pouco de conforto em meio a uma rotina completamente nova.

Quando o sono muda, a alimentação pode mudar também 

Dormir pouco pode parecer apenas mais uma consequência da rotina corrida do intercâmbio. Você trabalha até tarde, precisa acordar cedo para estudar, pega transporte por horas ou aproveita o pouco tempo livre para fazer tudo aquilo que não conseguiu durante o dia. Quando percebe, está dormindo menos do que gostaria e vivendo no automático. 

E aí talvez você comece a perceber algumas mudanças: acorda sem energia, passa o dia cansado, sente mais vontade de comer determinados alimentos ou chega ao fim do dia sem disposição nenhuma para preparar uma refeição. Não é só a sua energia que sente essa mudança, sua alimentação também pode sentir. 

Por isso, cuidar da alimentação durante o intercâmbio não significa olhar apenas para o que está no seu prato. Sono, rotina e descanso também fazem parte desse cuidado. Afinal, é muito mais difícil cuidar de si quando você está simplesmente tentando sobreviver ao cansaço.

E tem uma coisa que pouca gente fala: o luto migratório

Quando você vai morar fora, é comum passar por um processo chamado luto migratório. Ele acontece porque, mesmo tendo escolhido aquela mudança e estando feliz com a nova experiência, você também está deixando para trás pessoas, lugares, hábitos, rotina e referências que faziam parte da sua vida. É uma mistura de adaptação, saudade e construção de uma nova vida, e cada pessoa pode vivenciar isso de uma maneira diferente. 

E a comida também pode fazer parte desse processo. Você pode sentir falta do arroz e feijão de casa, do pão de queijo, daquele chocolate específico ou daquela comida que lembra a sua família. Às vezes, não é apenas vontade de comer um determinado alimento. É vontade de sentir um pouco de casa. 

Por isso, perceber essa relação é importante. Não para transformar toda vontade de comer em “fome emocional”, mas para entender que, em alguns momentos, a comida pode estar trazendo conforto, memória e familiaridade em meio a tantas mudanças. E tudo bem sentir isso.

Então, como construir uma alimentação possível no intercâmbio?

Depois de tudo isso, você pode estar pensando: “Tá, mas o que eu faço com tudo isso?” E a resposta não é começar uma dieta nova ou tentar comer perfeitamente todos os dias. A ideia é encontrar maneiras de se alimentar bem que realmente funcionem para a sua rotina. 

  • Pare de tentar comer perfeitamente. Tem dia que vai dar tempo de cozinhar e tem dia que não vai. E tudo bem. Sua alimentação precisa acompanhar a sua vida, não deixar sua vida ainda mais difícil. 
  • Tenha algumas opções coringas. Sabe aqueles dias em que você chega em casa acabado? Ter algumas refeições rápidas e fáceis já prontas ou opções que você consiga preparar em poucos minutos pode fazer toda a diferença. 
  • Não deixe para comer só quando estiver morrendo de fome. Quando você passa muitas horas sem comer, é muito mais difícil chegar à próxima refeição com uma fome controlada. 
  • Deixe a comida mais fácil para você. Quando for ao mercado, já pense no que vai comer durante a semana. Se puder, deixe algumas coisas prontas ou tenha opções práticas em casa. 
  • E, principalmente, não transforme a alimentação em mais uma preocupação. Você já está aprendendo um idioma, trabalhando, estudando, conhecendo um país novo e lidando com a saudade. Você não precisa ser perfeito na alimentação também. 

No intercâmbio, comer bem não precisa significar fazer tudo certinho. Precisa significar encontrar um jeito de cuidar de você dentro da vida que você tem.

Você não precisa passar por tudo isso sozinho 

Morar fora é uma experiência incrível, mas também é uma fase de muita mudança. Sua rotina muda, seus horários mudam, seus hábitos mudam, e é natural que sua alimentação também passe por esse processo. 

Se você percebeu que está comendo diferente depois que foi morar fora, está tendo dificuldade para se organizar ou sente que sua relação com a comida mudou, talvez seja hora de olhar para isso com mais atenção. E você não precisa descobrir tudo sozinho. Entender o que mudou na sua rotina, como você está se sentindo e o que realmente funciona para a sua realidade pode fazer toda a diferença. 


Aqui na 360, acreditamos que cuidar da alimentação também é uma forma de cuidar de você durante o intercâmbio. Por isso, preparamos um benefício especial para você: estudantes da 360 têm direito a uma conversa inicial gratuita de 30 minutos com a nutricionista Lígia para conversar sobre o tema. Nos envie uma mensagem para agendar o seu horário aqui.

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